Desenho por Vitor Sugimoto

Desenho: Vitor Sugimoto

– Bom dia Pedro, está na hora de acordar e me apresentar sua última parte desse capítulo, aquele que definiria o destino da história… Acho que eram fantasmas, não?

– Me deixe dormir, hoje é domingo e eu não deveria lhe dar atenção. Quer saber? Pegue essa parte do capítulo, está logo ao lado do meu aquário de peixes dourados.

– Sinto muito Pedro, mas não estou encontrando em lugar algum, acho que, talvez, você tenha o perdido.

Pedro abre os olhos e desesperadamente ascende a luz de seu quarto. Ainda com sono, seus olhos mal abertos procuravam encontrar a última parte do capítulo que, como dissera a voz, não estava em lugar algum. Não estava em baixo da cama, dentro de seus dois antigos armários de madeira, ao lado de seu computador fluorescente, na gaveta secreta dos mil segredos e tampouco na escrivaninha. Ele se vestiu com seu velho jeans surrado e aquela camiseta guardada desde épocas passadas quando o mundo ainda achava laranja uma cor moderna. Não havia tempo parar passar o protetor solar, pois já era hora de procurar A última parte do capítulo.

Ele respirou fundo, abriu a porta de seu quarto e saltou de braços abertos no céu roxo, um espaço vazio entre aqui e lá. Enquanto caía no abismo infinito, Pedro lembrou-se de que não mais possuía a capacidade de voar, pois essa fora roubada dele logo no início de sua adolescência.

– Ei Pedro, você não precisa mais tentar voar. O Céu é roxo como suco de uva daqueles de caixinha que sua mãe compra no supermercado. Portanto, não seria mais sábio nadar?

– Você tem razão voz, mas eu não gosto de nadar.

Então Pedro pegou de seu bolso um canudo grande e começou a beber o suco de uva, porém logo percebera se tratar de uma idéia tola, pois seu corpo não agüentava aquela quantidade infinita de suco. Pedro sabiamente se utilizou da famosa técnica de nado “cachorrinho” e começou a nadar.

– Olha Pedro, aquela coisa bem longe parece uma ilha ou talvez um biscoito. Por que não vamos até lá?

Para espanto dos dois, não era uma ilha nem um biscoito e sim um pedaço de terra com um grande portão vermelho estilo japonês. Somente isso.

– Pedro, nós vamos atravessar o Torii? Aposto minha inexistência que lá do outro lado existe algo que desse lado ainda não existe.

Ele novamente escutara a voz e então atravessou o portão. Bem do outro lado havia uma floresta ao estilo tropical, com montanhas enormes, árvores imensuráveis e, como de praxe, sons de diversos animais vindos de dentro dela. Pedro não era corajoso, nem um pouco, mas ele precisava muito da última parte do capítulo, então respirou fundo e correu para dentro da floresta.

Dentro dela era tudo muito escuro e assustador, porém as poucas flores amarelas que acompanhavam seu caminho o deixavam inexplicavelmente calmo. Pedro, para driblar o medo da floresta, fechou seus olhos e imaginou que estava correndo em um campo aberto, acompanhado de árvores de cerejeira durante a primavera.

– Pedro, é melhor você tomar cuidado com os macacos-pena. Eles estão em todo lugar e em breve irão nos atacar.

– Quem são os macacos-penas?

– São macacos, ora. Só que eles não possuem pelo algum no corpo e, ao invés de calda, eles têm uma pena gigante. Elas são venenosas, matam qualquer coisa em instantes, aliás, matam até sonhos de crianças após festas de aniversário. O irônico é que, caso eles arremessem suas penas em nós, eles morrem. Que pena, não?

Pedro ficou apavorado. Logo percebeu que não era mais vantajoso ficar correndo em uma floresta tão perigosa, logo decidiu entrar em sua imaginação, pois um campo de cerejeiras parecia bem menos perigoso. Porém no instante em que imaginara seu campo colorido de flores, uma pena perfurou seu mundo e destruiu qualquer chance de adentrar em outra realidade. Eram os macacos-penas que cercavam Pedro de todos os lados, até pelo céu. Enquanto o macaco Rei carregava aquele cuja pena perfurara o sonho de Pedro, os demais o prendiam em uma jaula de bambu.

Após longos minutos incontáveis de travessia na floresta, finalmente Pedro chegara à árvore gigante de lava conhecida por todos os animais da localidade como sendo a cidade dos macacos-penas.

– Pedro, eu te disse para prestar a atenção. Agora estamos muito longe da última parte do capítulo. Que tal você usar aquela coisa antiga chamada imaginação? Podemos voar daqui até ali e, quando chegar lá, ir até o outro lado daquilo fazer você sabe o que.

Ele não sabia mais usar essa coisa chamada imaginação, então fez o que parecera mais óbvio: começou a gritar na jaula como se fosse um macaco. Logo, todos os macacos-pena perceberam que se tratava de um desafio pela supremacia do território, algo como ser o macho alfa, ou melhor, ser o novo Rei.

Claro que o poderoso Rei dos macacos-pena decidiria o desafio. Então ele pegou sua coroa e apostou com Pedro quem conseguia ficar mais tempo sem a tentação de colocá-la na cabeça.

– Gostei Pedro, essa foi inteligente, mas não sei nem se eu agüentaria ficar tanto tempo sem colocar essa peça de ouro brilhante em minha cabeça. O que vai fazer? Correr?

A resposta de Pedro não foi correr. Ele apenas precisou aguardar alguns segundos para que o narcisista Rei dos macacos-pena agarrasse seu precioso objeto e colocasse em sua cabeça. Com sua vitória decretada, Pedro agora era oficialmente o novo macho alfa.

– Ó poderoso Rei dos macacos pena, eu não quero ser o novo líder de sua espécie, apenas desejo que me ajudem a encontrar a última parte do capítulo. Acha que consegue isso para mim?

– Garoto, mesmo sendo um ser supremo de coroa dourada e linda pena coloria, não posso lhe entregar aquilo que dentro de você está.

Pedro logo entendeu a mensagem, esticou sem braço e o enfiou boca adentro em busca da última parte do capítulo. Porém somente sentiu seus órgãos, ossos e afins. Quem sabe seria necessário puxar tudo para fora e inverter seu corpo?

– Pedro, não é por nada, mas acho que o Rei dos macacos pena apenas estava se utilizando de metáfora. Na verdade acho que era para você entender outra coisa, não acha? Que tal usar sua imaginação, por favor?

– Mas onde ela está?

– Justamente naqueles momentos mágicos das lembranças esquecidas de nosso lado infatil.

Pedro então fechou seus olhos novamente. Pensou em doces, carros, bonecos de ação que tinha quando criança, brincadeiras perigosas que fizera com amigos, piadas, textos escritos na aula de redação, sonhos, uma cidade de leprechauns…

– Pedro, sua asa voltou! Acho que podemos voar!

– Então vamos atrás da última parte do capítulo.

– Pra que Pedro? Você já pode voar, agora pense o que fazer com o final desse capítulo. Com os fantasmas, não é?

Pedro sorriu e alçou vôo. A voz sumiu, os macacos desapareceram. Os olhos se abriram: hora de escrever a última parte desse capítulo.

Asclépio, assim como seu pai Apolo, possuía dons vinculados ao poder da cura. Pela lógica não demorou para surgir seguidores que peregrinavam entre mundos criando templos em sua homenagem e praticando a arte da medicina. Mas não é esse o contexto dessa narrativa, então resumindo: ele acabou sendo punido por conseguir ressuscitar os mortos pelo magnífico Zeus. Logo em seguida todos os Deuses Gregos ironicamente desapareceram no imaginário, não mais importando ao coletivo.

Sem um Deus específico para os orientar, seus seguidores ficaram sem destino. O que é muito bom, não me interprete de maneira errônea. Eles estavam livres para evoluir em sua ciência, sem a necessidade de aturar as excentricidades aleatórias dos avarentos Deuses do Olimpo. Assim seus seguidores foram se organizando, multiplicando, dividindo e cada vez se especializando em uma arte diferente da cura.

Mas esse também não é meu propósito, pois, caso eu elabore um desenvolvimento de cada fragmentação da ciência médica, terei de copilar tudo em um grande livro. Quero falar de uma – ou do conjunto de várias – especialidades que se arriscaram em entender o mundo mental. Me refiro ao grande templo que fica no centro do mundo da grande metrópole, perto da montanha popularmente associada às almas alucinadas.

Alguns seguidores se organizaram para explorar o mundo mental dentro da perspectiva médica. Outros resolveram promover a cura pela palavra. Outros acompanham os alienados diariamente, promovendo suporte básico a suas necessidades. Enfim, cada seguidor de Asclépio se dedicou na especialização (ou seria fragmentação?) de uma área no grande templo mental.

Eu que vos escrevo sou testemunha da insana rotina desse local. Na semana passada atendi um Deputado Federal, outro dia recebi um Ditador sanguinário e até já jantei ao lado de Deus. Sim, ele mesmo. Os jovens e futuros seguidores de Asclépio acompanham os seus mentores nessa viagem entre múltiplos universos fantásticos e pensamentos delirantes. A mente humana se torna um espetáculo aos olhos dos curiosos. Também há os que não romperam seus mundos e mantém dilemas existenciais – angústias, neuroses.

Porém – como estava faltando um motivo lógico para essa narrativa – vou me atentar à problemática ainda não esclarecida. Mesmo lidando com mundos subjetivos de uma extraordinária ciência não linear, nós nos tornamos descrentes. Tudo aos nossos olhos se tornou tão rotineiro, talvez objetivo, que mesmo diante da menor possibilidade de magia, nós ignoramos.

Há três dias eu participei do atendimento a paciente Ana. Ela se dizia rainha de Folie. Eu e meu colega – cada um em sua ciência – nos dedicamos em tirá-la daquele sofrimento mental. Eu pensei nas possibilidades medicamentosas e ele se se usou da análise do que era percebido. Engraçado não? Nós entramos em seus delírio somente com o propósito de tirá-la. E conseguimos, com êxito. Matamos todos os seus mundos, suas fantasias, delírios e alucinações. Obviamente ela fugiu em uma tentativa desesperada de voltar ao imaginário, mas foi nessa busca que nós causamos sua morte. Fechamos o prontuário dela e esquecemos o caso. Fora apenas mais uma entre milhares.

Eis que enfim chego ao motivo que me levou a essa escrita. Após tal evento, todos os envolvidos – diretamente ou não – romperam com a realidade. Uma colega disse ter escutado uma linda canção vinda da montanha que fica aqui ao lado – embora testemunhas negassem o episódio relatado. Em sequência, nos confessou ter desenvolvido a habilidade de degustar as cores e enxergar as notas musicais. Outro colega relatou no dia seguinte ter conversado por horas com o Leão sobrevivente do reino de Folie. Por último, um consagrado colega de profissão se jogou do quinto andar logo após ter nos convidado ao seu casamento com a fada de Cottingley.

Houve outros casos, mas a ideia ficou clara: estão todos enlouquecendo aqui. Um surto de loucura assombra esse local. Não sei o que fazer, não compreendo mais nada do que está ocorrendo.

Caso deseje saber, eu estou encarcerado na sala número 13, do sétimo e último andar, no manicômio central. Fui cercado por um Leprechaun e um Troll que me juraram de morte caso eu não entregue o pedaço de papel que confisquei de uma interna. Ela havia encontrado esse nobre pedaço de carvalho na rua, mas agora ele é meu e não posso dividir com mais ninguém. Eu sei que há algo precioso nele, umas letras que eu um dia eu irei cantar.

Caso você esteja lendo isso, por favor, me ajude. Não se preocupe em vir aqui, pois a loucura não é contagiante. Só preste atenção ao enorme dinossauro em minha janela e tudo ficará bem. Atenciosamente, Dr. Alexandre III, o Grande.

Eu e meu colega Sugimoto resolvemos escrever mais uma série de contos, formando uma grande história. Como de costume, me reservo à escrita, enquanto ele transforma os textos em arte por meio de seus desenhos. Esse conto faz parte da sequência ao “O Reino de Folie”. Os demais, porém, serão estruturados como roteiro e adaptados diretamente em quadrinho. Enfim, espero que gostem.

 

No quase extinto reino mágico da Bretanha as criaturas fantásticas e seres mitológicos estavam morrendo. O mundo ficava cada vez mais cinza cor de cimento, um sintoma destrutivo do progresso industrial. Não era possível encontrar os escandinavos Trolls, tampouco os Leprechauns – guardiões do sagrado tesouro imaginário. Porém, mesmo vendo que o mundo estava matando a magia, ainda restava um último Bardo.

Willian e seu violino peregrinavam entre cidades da grande Bretanha cantando histórias de amor, lendas de um mundo mágico onde poemas e criaturas imaginárias se misturavam em uma única dimensão. Ele percorria todo reino com seu sorriso, alegrando os últimos resistentes do progresso esquizofrênico de necessidades vazias. O Bardo tentava mostrar ao mundo unidimensional outras realidades, fantásticas ou não, em uma tentativa de integrar os múltiplos universos. Mas ele já estava se cansando com a falta de inspiração, não mais conseguindo se fazer entendido, ou ao menos escutado em suas canções.

Um dia, próximo à montanha das almas alucinadas, o Bardo caminhava ao som de seu violino e, distraído, tropeçou quase a beira do precipício. Willian se assustou, porém seus pensamentos se foram envolvidos pela presença de uma grande metrópole abaixo do abismo.

Mesmo pessimista ao contemplar a cidade em sua rotina vácua, cheia de rituais insignificantes, o Bardo pôde se deliciar com uma perspectiva diferente: uma mistura de luzes diversas, com pessoas dançando sob ritmo de uma estranha melodia composta por sons agradáveis e ruídos. Elas andavam para todo lado, tão distraídas quanto ele na montanha, e não se davam conta das possibilidades de magia naquele cenário escasso.

Havia muita vida ignorada pelos angustiados habitantes. Alguns corriam falando sozinhos com um aparelho no ouvido, outros gritavam em suas carruagens metálicas, e algumas tribos se reuniam em rituais de catarse, se destruindo na necessidade de se sentirem vivos. As crianças, talvez as únicas que percebiam a magia ao seu redor, eram caladas pelos demais.

Próximo ao prédio onde os seguidores de Asclépio caminhavam sem destino e da trilha onde jovens artistas se escondiam da censura, o Bardo avistou uma silhueta que se destacava das demais. Ficou encantado em observar a energia cheia de tonalidades distribuída pela figura longínqua. Enfim, percebeu que em meio ao caos do progresso cinza, era possível sentir luzes e cores, sons e ritmos, e pessoas com capacidade de modificar a estrutura ríspida ao seu redor com gestos naturais.

Encantado, o Bardo decidiu se entregar a aquela beleza e compôs uma canção. Pegou seu violino, fechou seus olhos e se entregou. Porém, em poucos segundos sua melodia fora abafada pela grande metrópole. Ele insistiu, mudando a tonalidade da canção para um azul mais claro, explorando também cores mais quentes e associando depois alguns sabores da primavera. Willian até se permitiu usar as notas secretas dos Menestréis cegos de Veneza … mas ninguém escutou.

Em um breve segundo, ele observou que uma das manchas distantes – no meio das silhuetas – saiu de seu caminho e o percebeu no alto da colina, porém logo voltou a seguir sua trilha. Decepcionado com toda a situação, ele encerrou sua canção e se pôs a refletir: seria aquela dimensão tão anódina, ou sua presença que era insignificante?

Willian, o último Bardo, percebeu então que aquele não era seu momento, ou talvez sua dimensão. Em um admirável mundo novo, o progresso cinza de caminhos retos não permitia mais espaço para suas músicas. Ele se deu conta do quanto se tornara dispensável – uma velharia que serviria apenas para livros de história ou contos infantis. O Bardo sabia que era o ele estrangeiro, falando outro dialeto, em uma dimensão que se mantinha distante.

Em seu último esforço, anotou sua última canção em um papel de carvalho entregue pelos seus amigos Druidas e a jogou em direção da metrópole. Após isso, Willian retornou à montanha das almas alucinadas e – como sugerem alguns velhos ébrios do Pub da cidade – desapareceu no mundo do sonho. Lá ele repousa até hoje, ansiando pelo momento em que aquela dimensão se modifique ou, quem sabe,  chegue seu momento no espaço-tempo. Até lá, ele permanecerá cantando seus delírios juntos às almas alucinadas.

Take chances, a lot of them. Cause honestly, no matter where you end up, and with who, it always ends up just the way it should be. Your mistakes make you who you are, you learn and grow with each choice you make, everything is worth it. Say how you feel – always. Be you, and be okay with it.  


(tirado do site NedHardy)


A estrada é escura e com poucos carros – é quase impossível enxergar a estrada – porém o tempo é curto e ele tem evitar pensar no cansaço e, conseqüentemente, em parar para descansar. Ele deve chegar à cidade mais próxima exatamente às cinco horas da manhã e entregar a encomenda, logo após terá um compromisso urgente, seguido de um encontro com seus familiares e deve retornar à sua casa por volta das sete horas da noite.

O homem tenta focar a atenção em diversas coisas, como por exemplo, as estrelas no céu, as luzes de cidades próximas a estrada, diversas placas sinalizadoras, porém seu maior trunfo está na música: pesada, heavy metal, para evitar qualquer chance de fechar seus olhos. Claro que nada foi possível para conter o sono de horas de trabalho e logo sua atenção sumiu, seus olhos fecharam e ele, por exatos 5 segundos, pilotou carros de fórmula um em nuvens doces e amarelas, porém despertou assustado e contra sua vontade resolveu parar no acostamento.

Fora do carro estava escuro e a mata ao lado da estrada não ajudava muito ele a se acalmar para dormir, porém em determinado momento resolveu fechar os olhos e lutar contra seu medo. Foi nesse momento que o barulho surgiu do lado de fora. Ele pensou em vários motivos para ignorar o som, porém sua curiosidade milagrosamente superou o medo e, ao enfrentar a origem do som, deparou-se com um cachorro branco de olhos verdes e profundos. O animal parecia estar com frio.

Ele tinha um ponto fraco, pois não conseguia olhar para um animal sem se apaixonar e logo abriu a porta para ver o canino que educadamente agradeceu:

– Olá nobre humano, obrigado por me conceder um espaço em sua humilde carruagem. Aqui fora está muito frio e eu não consigo dormir.

– Você fala?

– Sim e obviamente você também consegue, viu só como somos parecidos?

– Mas cachorros não podem falar!

– Na verdade podemos, só não é conveniente. Aliás, o que um primata faz perdido nessa escuridão, de madrugada, ao lado de uma mata densa?

– Estava dirigindo até a cidade mais próxima, porém senti muito sono e resolvi parar.

– A cidade? Estamos ao lado dela, bastas atravessar alguns metros na mata e você chegará. Por esse caminho cinza provavelmente demorará muito mais.

– Você está louco? Não vou entrar no meio do mato e me arriscar só pra chegar mais rápido.

– A questão não é apenas a rapidez do trajeto. O caminho pela mata é muito mais agradável, bela e com paisagens que o caminho cinza não lhe proporcionará. Aliás, jamais escutei falar de árvores que atacassem. Quer saber? Venha que eu lhe mostro.

– Não vou sair do meu carro para entrar com um animal na floresta!

– Bem, sua carruagem permanecerá imóvel aqui e eu posso lhe garantir que sou vegetariano…. a carne de primatas não me agradam, tem gosto de frango.

O cachorro desceu do veículo adentrando na densa e escura floresta. Misteriosamente, existia algo naquele animal que atraiu o homem que, sem hesitar, o seguiu.

– Olha, sou um cachorro, correto? Se eu não me engano somos melhores amigos, ao menos é que o senso comum diz. Para ser franco, nunca entendemos sua espécie direito, porém não os questionamos por respeito aos bons tratos por vocês prestados.

– Ok, vou com você… tenho nada melhor para fazer mesmo.

Ao entrar na floresta o homem congelou. Não conseguia encarar a escuridão tão ameaçadora à sua frente.

– Está ficando escuro aqui dentro, não acha? Não devemos voltar e pegar alguma lanterna, ou uma faca pra cortar esses malditos galhos?

– Ah sim, me esqueci das ferramentas. Vocês são deuses com elas, porém se reduzem a meros ratos quando estão desarmados. Melhor, os ratos são animais interessantes e valentes, acho que a única comparação justa é de vocês com vocês mesmo. Mas dessa maneira soa redundante. Por que não relaxa e tenta se orientar com a já forte luz da lua?

– Não tinha reparado na Lua, ela está linda.

– Na verdade está como sempre esteve, porém você não a enxerga há quanto tempo? Vive ocupado, correndo nesse caminho cinza em sua carruagem de metal sem perceber o mundo ao seu redor. Lembro quando você era guitarrista de uma banda, porém se sentiu ameaçado pela idade e correu para se formar em qualquer coisa, mesmo por desgosto, para não ficar atrás. Atrás de quem?

– Quem é você? Como sabe quem eu sou?

– Eu sei tudo sobre você. Conheço seu hábito de sempre querer agradar a todos, já testemunhei diversas crises suas por alto nível de estresse. Lembro-me como se fosse ontem do dia que você chorou no trabalho ao perceber o quanto odiava aquele lugar. Posso fazer uma constatação? Gostava de suas músicas.

Obviamente que após a afirmação do animal, o homem questionou a possibilidade de tudo ser apenas um sonho, ou quem sabe, um pesadelo. Porém a brisa gelada da noite, os movimentos das folhas nas árvores e os diversos arranhões feitos pelos galhos afirmavam que era tudo muito real. Antes que ele pudesse retrucar a afirmação do animal, foi surpreendido por uma vista deslumbrante: era a cidade.

– Não disse? A cidade fica a poucos metros da mata. É até cômico pensar que vocês primatas desenvolvidos caminham por duas horas em uma estrada cinza dentro de suas carruagens quando poderiam facilmente atravessar uma mata a pé e chegar ao mesmo lugar em poucos minutos. O óbvio estava o tempo todo ao seu lado… Não é uma bela vista?

Realmente o canino tinha razão, a vista era maravilhosa. A mata acabava em um grande desfiladeiro, logo era possível contemplar toda a cidade de uma visão privilegiada, jamais vista por ele: do alto. O homem conseguiu identificar as luzes das avenidas principais, viu as fileiras intermináveis de carros e percebeu uma linha no horizonte indicando que o sol estava para nascer. Ele estava atrasado.

– Meu deus, está amanhecendo! Preciso voltar ao meu carro!

– Tenha calma, não quer aproveitar para ver o sol nascer? Aposto que jamais parou no alto de alguma colina para ver tal fenômeno. É triste pensar o quanto você perdeu.

– Como assim? O que eu perdi?

– Meu jovem, sua carruagem não está mais no local que deixara. Esta fora rebocada por outros humanos que a encontraram na beira da estrada. Dentro da carruagem havia um jovem exausto humano que, por não agüentar o cansaço, exauriu suas últimas energias e não agüentou.

– Você está dizendo que eu morri? E meus pais, meus amigos, minha esposa, meu trabalho?

– Até sabendo de seu acidente você se preocupa com a estrada cinza? Jovem, sente-se, pois não há nada que possa fazer. Estes por você citados vão provavelmente sofrer, mas inevitavelmente irão continuar em suas próprias estradas.

O homem, mesmo relutante, acreditou no animal e se sentou na beira da colina para ver o amanhecer. Ainda sem entender absolutamente nada, ele se atentou a apenas admirar o fenômeno à sua frente. O sol lentamente nascia e iluminava o céu ao seu redor. As árvores refletiam a luz do sol em um espetáculo de cor e beleza. Era tudo muito novo, muito belo. Por um momento ele sorriu:

– É maravilhoso…. E um novo dia começou.

Não entrei na dança, escapei do rebanho e tentei fugir do clichê de viver uma vida sem graça, sem vontade, cuja única motivação seria cavalgar quietamente. Bem, talvez algumas pessoas sejam condizentes com tal realidade, mas não eu. Sou piegas o bastante para acreditar no tal de Shangri-La, um local sagrado e maravilhoso onde seria capaz de realizar meus sonhos e vontades.

Logo descobri que Shangri-La é um lugar complexo de se encontrar, já que esse existe somente na mitologia, no reino do sonhar, e para encontrá-lo deveria me preparar com o mais moderno equipamento. Sabe o que eu fiz? Perdi minha bússola, rasguei o mapa, afoguei as expectativas e agora estou preso em algum espaço-tempo sem saber para onde correr. Muitos seres vieram em minha mente para alertar os perigos dessa jornada, alguns até me mostraram as maravilhas de desistir e ser reforçado com uma rotina segura… Insignificante. Alertaram-me que Shangri-La não passava de um sonho infantil, inexistente.

Enfim, aqui estou preso nesse lugar estranho entre mundos e sonhos, desesperado em me convencer a desistir dessa busca. Em algum ponto determinado do tempo eu conseguira fazer uma pequena revolução, porém logo esta fora abafada pela falta de resolução. Momentos assim são constantes e desesperadores, pois lhe dão uma pequena amostra do paraíso e, após esse vislumbro, o arremessam novamente no infinito vazio do espaço-tempo.

Estranhamente, ontem consegui sentir novos caminhos, porém eles estavam sufocados por uma densa neblina, assim me permitindo somente visualizar o início, mas não o meio nem seu fim. Um deles aparentemente era longo, alguns anos luz ou mais para encontrar sua extremidade. Outros caminhos são cercados de dúvidas, incertezas e depende de uma força invisível para atribuir o seu rumo, sentido, acontecimentos, enfim, essa força chamada sorte nos prende ao vazio sem nos permitir qualquer passo adiante. É claro que existem os caminhos que nos fazem retornar ao chamado mundo real, mas esses nada me importam no momento.

Encarcerado nesse vácuo, acompanhando silenciosamente os passos de outros, sentindo a vida avançando, sem ter para onde ir. Um simples observador do cotidiano vivendo sua vida em terceira pessoa. Sem minha bússola, sem o mapa, sem destino e sem qualquer placa indicadora, dando passos pequenos para não se perder na neblina, pensando se realmente Shangri-La existe. Caminhos são muitos, mas poucos me levarão até lá, ou não. A única pista é que esse local maravilhoso somente pode ser percebido dentro do coração, não da razão.

Aquela garota com longos cabelos coloridos e sorriso doce como merengue é a toda poderosa rainha sem nome do reino Folie. Ela vive em seu enorme castelo construído por sua melhor engenheira e montado por unicórnios com muito giz de cera, lápis de cor, confeitos, purpurina e diamantes. No topo de seu castelo está a varanda imperial, com uma cama de algodão doce e outros utensílios básicos, como sua armadura brilhante dourada e a espada Excalibur.

Seu castelo possuí um gigantesco jardim das quatro estações do ano e sua entrada é um pequeno labirinto para gnomos com escorregador e piscina aquecida. Depois do labirinto há apenas o vazio de mundos paralelos e sem importância. Porém, toda vez que se escutava o ronco da Serpe, havia grandes possibilidades do reino ser atacado por criaturas disformes além horizonte.

Para sua proteção, o reino de Folie conta com o maior exército de animais que se pode imaginar. A principio a rainha colocara os seus Leões como guardiões da entrada, mas eles eram muito preguiçosos e foram substituídos pelas suas esposas Leoas. Aliás, todo exército fora trocado por mamíferos do sexo feminino apenas pelo entretenimento de inverter o status quo. Ah, quase me esqueci, ela adorava tanto os dinossauros Diplodocus que os tirou do posto de tobogãs e os colocou como torres de segurança, com baleias arqueiras no topo.

Tudo era perfeitamente perfeito no reino Folie… Até que um dia as baleias avistaram no horizonte um enorme dragão mecânico se aproximando. Todas as mamíferas tomaram a dianteira para o ataque, porém foram desaparecendo uma a uma diante do majestoso e barulhento dragão. A rainha ordenou que as torres saíssem do habitual posto e o atacassem com as baleias, porém todas tombaram no momento que o dragão parou diante do portão do castelo. Ele deu um enorme grito e, de maneira bem escatológica, expeliu por todos orifícios criaturas brancas e disformes.

Nesse momento os preguiçosos leões acordaram e atacaram as criaturas disformes com admirável coragem, mas aquelas “coisas” possuíam estranho arco com pontas enormes que eram arremessadas nos leões, os derrubando instantaneamente. Assim que o último leão fora acalmado, uma flecha com ponta de aço acertara a rainha… caindo… pernas se aproximando… branco… cena faltando. Enfim a poderosa rainha fora vencida.

Não se sabe quantas cenas se perderam durante o sono profundo da rainha, mas fora constatado que em determinado momento ela acordou dentro do dragão de aço e conseguiu enxergar melhor as criaturas. Estavam todos de branco, o que obviamente a fez imaginar que se tratavam dos famosos magos brancos dominadores de mente ou simplesmente de pessoas com pouca criatividade na vestimenta. Após tal constatação, ela apagou novamente.

A poderosa rainha acordou em um enorme castelo esteticamente desagradável, com muros altos e um monte de gente estranha falando coisas sem sentido. Um dos magos brancos a levou para uma sala toda branca com outros dois magos, porém diferentes dos demais. Um deles fazia perguntas sem sentido e anotava tudo o que a rainha pensava em um papel, também branco. O outro apenas a escutava e raramente esboçava reação. No fim de toda aquela conversa, um deles anotou poemas com palavras longas e entregou ao primeiro mago que, ao fim do dia, deu a rainha várias pedrinhas coloridas para ela tomar com água. Ao ingerir as pedrinhas coloridas ela dormiu instantaneamente.

Aos poucos a rainha percebeu que seus cabelos foram perdendo a cor até ficarem pretos, seu sorriso estava azedo e não mais enxergava tantas cores quanto antes. Quando estava na hora de dormir, ela sempre gritava pelo seus animais, mas apenas o mago branco aparecia para lhe reprender. Existiam outros como ela, imperadores, reis, bruxas, diplomatas, enfim, presos e encarcerados pelos maquiavélicos magos. Todos tirados de seus mundos e perdidos naquela prisão.

Dias se passaram, semanas, meses e a rotina naquele lugar era sempre a mesma. Um dia um dos dois magos dominadores de mente – aquele que era mais quieto e fazia cara de idiota de vez em quando – a chamou de Ana. Depois desse dia, todos a chamavam de Ana o tempo todo. Inclusive marcavam esse nome em papéis, em documentos que lhe entregaram e até a fizeram assinar esse nome várias vezes. Após a treinarem a ser Ana, passaram a interroga-la sobre seu reino, sua vida e de contos passados que narravam uma vida que ela desconhecia.

Um dia Ana fora acordada por um mago, mas ele estava estranhamente fantasiado de vermelho com barbas brancas. Ela ficou com medo. O mago chamou todos os prisioneiros para fora, ao ar livre. Ana acompanhou todos para o local que ela considerou como “o jardim mais feio e morto” do Universo. Lá todos cantaram músicas melosas e se abraçavam por qualquer motivo aparente. Um dos magos segurava uma pasta marrom com papéis dentro e, toda vez que o mago vermelho se aproximava de alguém, ele conjurava o nome da pessoa ao colega.

Em frações de segundos e sem qualquer explicação, Ana roubou a pasta do mago distraído e conseguiu fugir pelos enormes portões daquela prisão. Ela correu desesperadamente até encontrar uma estrada cinza e, após alguns minutos nela, uma carruagem mágica parou diante dela com uma adorável senhora muito grande – talvez recheada com vários doces – que sorria demais. Ana a mostrou o papel com seu nome e pediu pra senhora recheada a levar no local que constava como endereço de seu antigo reino.

Ao chegar no local, a senhora recheada parou, se despediu e Ana desceu da carruagem apenas para  entrar em choque: não havia castelo, jardim e nenhuma criatura. Ana, tremendo de dor e aos prantos, percebeu que haviam destruído seu reino e o substituído por um terreno com mato alto e uma construção de madeira, toda destruída, ao centro. Ana sabia que era aquele seu antigo reino, pois encontrou pedaços de seus gizes de cera e lápis de cor no chão. O reino de Folie estava oficialmente morto.

Ana juntava desesperadamente os restos de seu reino, até escutar do horizonte o grito da Serpe: eram os dragões de aço da aproximando rapidamente. Ela entrou na construção para procurar a espada Excalibur, mas apenas encontrou uma faca pequena, igual aquelas que eles usavam no refeitório da prisão dos magos brancos. Porém, mesmo assim, ela se armou e se preparou para o ataque iminente.

Dessa vez os magos desciam dos dragões juntos de ameaçadores soldados. Eles gritaram para ela largar sua espada improvisada e “se entregar”. Ana não entendeu a ordem e, quando um soldado se aproximou, o acertou com sua espada. Todos os outros soldados apontaram para Ana um arco estranho de metal, porém dessa vez as flechas eram mais velozes e a machucaram em uma intensidade jamais sentida por ela. Dessa vez, Ana fora acertada pelas flechas mortais dos soldados imperiais, derrubando sua espada e se rendendo ao chão.

Ela não conseguia mais respirar ou se mover. Ana não entendia porque estava tão fraca, não entendia o motivo de terem a derrubado com tamanha brutalidade… não entendia mais nada: apenas sentia dor. Em seu último suspiro, Ana virou sua cabeça para contemplar o local que um dia fora seu reino. Nesse momento, aquele terreno tosco e estranho se transformou novamente no local mágico que ela conhecia.

Lá estava seu castelo mágico, seu jardim das quatro estações com o labirinto de gnomos, as amigas mamíferas, as torres de dinossauro e até os leões – que obviamente estavam dormindo… a poderosa rainha de Folie deu seu último sorriso, o mais belo de todos, se despediu de seu reino e fechou os olhos. Ela estava finalmente livre.

Sir. Gawain era um caçador de problemas, aliás, era o herói absoluto de todo reino das anti-regras. Ele desvencilhou todos os maiores erros na lógica, enfrentou aqueles problemas bizarros que só podem ser resolvidos com raciocínio abstrato e, finalmente, derrotou sozinho os sete capítulos do notório livro das infinitas crises. Sir. Gawain com sua lógica era inquestionável. Era dotado do mais elaborado código de ética e da moral mais perfeita de todo o reino.

Alguns loucos do reino diziam que seu código de ética e sua moral eram rígidas e extremamente inflexíveis. Porém, Gawain ostentava com orgulho sua conduta, e fazia questão de subjugar qualquer outro cidadão cujo comportamento fosse diferente. Não havia maneira dele quebrar qualquer regra, não havia concessões.

Bem, como é de se esperar em qualquer conto com criaturas místicas e ambiente medieval, há algum bruxo ou mago desocupado que, por qualquer razão que seja, decide azucrinar o personagem principal para lhe dar alguma lição de moral. Aqui não é diferente: após ser oprimido por Sir. Gawain, o terceiro mago do destino orquestrou um plano (admito que fora bem interessante) para colocar o guerreiro a prova. Ah sim, como sempre, o plano se estabelece no âmbito amoroso.

Um dia, como qualquer outro dia bizarro, nosso respeitado herói cavalgava nas montanhas dos 200 semblantes, próximas do mitológico tesouro guardado pelo leprechaun sem nome, até que resolveu parar  no lago para se banhar. Logo que chegou na beirada do lago, Sir. Gawain avistou a mais bela e delicada rosa de todo o reino. Ela era perfeita, com longos cabelos escuros como a noite, pele delicada e um corpo que o fez se seduzir imediatamente. Ele se encantou tanto, que passou longas duas horas imóvel, em pé, hipnotizado pela  beleza daquela garota.

Após longa espera, Sir. Gawain conseguiu se aproximar da garota para apenas perceber que se tratava da noiva de seu irmão mais velho. O plano do perverso mago do destino se concretizara, pois o guerreiro da ética e da moral perfeita se percebeu em um horrível dilema: ele quebraria suas regras em nome da garota que ele tanto sonhou em encontrar, ou mantinha suas regras e aceitava ficar sozinho (ele não conseguira sentir antes o mesmo por qualquer outra donzela do reino).

Agora o magnífico Sir. Gawain encontrara um inimigo a altura: ele mesmo. No fim é isso mesmo, o mago fica feliz em lhe dar “aquela” lição, a plateia se emociona e o herói passa o restante do conto se martirizando em um dilema eterno. Todos contemplarão o espetáculo da jornada do herói rumo a auto descoberta, passando por todas as típicas etapas até aceitar sua escolha e as consequências que esta desencadeará.

Sir. Gawain ficará com a garota? Isso já não sei. O que importa no conto é a inevitável crise do personagem principal, pois é ela que o faz perceber seus verdadeiros paradigmas e que, acima de tudo, ele é seu próprio vilão.

A razão e a lógica são boas, com mostarda e alguns outros condimentos se tornam especialidades que até um astronauta desceria de marte para comer. Não se deve comer no dia seguinte, pois aí já estará um pouco azeda e com certeza vai causar uma enorme diarréia de pensamentos abstratos. Tento fazer sentido em um dos meus trilhões de mundos perdidos pelas ruas esburacadas do inconsciente, mas enquanto chovia as pessoas que habitavam os lugares mais altos da árvore não conseguiam dormir.

Ao abrir a janela estreita do mundo onde os golfinhos imperam com maestria e os pingüins fazem parte da guerrilha de resistência, tentei não filosofar sobre aspectos genéticos da deformação que nos torna tão estúpidos. Eu sou estúpido. Ontem quando me falaram que eu não fazia sentido, justifiquei usando calças jeans e camisetas customizadas do Jethro Tull. Não havia formas de tocar banjo no momento da explicação, então apenas me utilizei daqueles assobios de outrem para compor uma melodia tão estranha que nem era possível escutar.

Eu tentei descer as escadas correndo para não perder o ônibus que não existe para lugar nenhum, mas me atrasei por culpa de um pigmento solto no meio do caminho. Parecia um pixel queimado bem no momento em que o ninja iria dar aquele golpe maravilhoso que todos sabiam da existência, mas nunca conseguiram executar. Tudo parecia incomodar a população do hemisfério perdido dos sonhos esquecidos, mas para dizer a verdade, já era hora de acordar. Porém, antes que o avião decolasse para o parque de diversões do rato falante, eu sabia que me faltava algo de importante.

O problema no caótico ano de infinitos dias, fora a ruptura que separou o mundo em vários, e nada mais se encaixava. Os pingüins fizeram um acordo de paz, sendo que no decreto estava estabelecido o acordo de livre comércio entre os suricates. Tudo mais se estabilizava, até que os malditos paladinos do mundo cuja emoção sobrepujou a razão há anos alertaram que faltava apenas uma chave, a mais fundamental.

Onde ela estava? Ninguém sabia. Não havia um mundo, não havia vestígios e tampouco canções de bardos indicando os caminhos sagrados de vitórias passadas. Talvez só restassem derrotas? O mundo novo que agora de estabilizara penava para preencher a maior e mais esperada lacuna. A missão estava sendo decretada impossível e o caso encerrado.

No fim, resta aquele lugar no meio, onde sua estranha falta faz com que o mundo comece a se dividir novamente, rachaduras se formem no sonhar, buracos no inconsciente e depressão entre os tristes e solitários animais de único sexo. Não adiantava procurar debaixo da carteira. Não havia possibilidades de encontrar algo no material, na internet ou no canto daquela sala verde e escura. Dizem que isso que falta aqui nesse mundo, é algo natural.

Bem, agora com licença que eu vou sonhar dentro do sonho… até mais!

Eis que após diversos invernos nucleares e eras glaciais, aqui estou novamente (mais uma vez) reativando meu hábito estranho de escrever coisas quase aleatórias em ambiente virtual.

Aos que se lembram, em épocas ancestrais, eu costumava escrever textos sobre a vida, o universo e tudo mais, sempre os publicando com a ordem cronológica mais anárquica possível. Porém, aqui a coisa será diferente… quer dizer, a minha total falta de capacidade publicar textos em ordem continuará (com os sempre respeitados prazos aleatórios e meses de ociosidade), mas prometo que os novos textos farão menos sentido do que os outros.

Sem mais, decreto que nesse dia de ressaca Natalina meus textos possam ser novamente reescritos e espalhados pelo mundo. Que os Deuses tenham piedade de nós.